40 anos sem carreira

AVAST!!
Creative Commons License photo credit: Ian Sane

Esse post é baseado em um texto que escrevi em 2006. Encontrei-o e resolvi publicá-lo em meu blog como forma de compartilhar minha experiência. Ele foi atualizado e reflete o meu momento atual. Acredito que ele seja útil para muitas pessoas. Leia e partilhe aqui sua opinião e sua experiência nos comentários.

Cheguei aos 40 começando a compreender sobre a importância de várias coisas, entre elas, uma carreira.

Minha vida profissional começou em 1989, quando me formei em Comunicação Visual e Desenho Industrial pela PUC do Rio de Janeiro. Pra quem não conhece, esta é uma das universidades de ponta do país.

Sabia que era hora de trabalhar; procurei empregos na área da única forma que conhecia: buscando em classificados de jornal. Pouquíssimas oportunidades surgiam e comecei a ficar desesperançoso. Então minha irmã – que trabalha em turismo – me apareceu com uma oportunidade de emprego como recepcionista de hotel. E lá fui eu.

Pra mim, naquela época, trabalhar já era muito importante, mas nem pensava em fazer uma carreira, mais por ignorância do que qualquer outra razão. O tempo foi passando. Gostava de trabalhar em recepção de hotel, gostava de praticar as línguas estrangeiras que sei e tudo estava bom. Sem me esforçar muito, rotineiramente olhava os classificados de domingo a procura de uma oportunidade para programador visual.

Em 1995 adquiri meu primeiro computador, um Mac, o “computador dos designers”. Na época eles eram difíceis de comprar por aqui, então a opção foi adquirir um usado. Essa aquisição me dava a sensação de estar mais perto de encontrar um emprego como programador visual. Soa tolo, mas…

Enquanto ia entendendo a máquina, seu funcionamento e aplicativos, continuei trabalhando em turismo, passando de um hotel a outro. Por essa época começou o fenômeno dos BBS’s, sistemas de troca de mensagens online, que já prenunciava o que seria a rede mundial. Algum tempo depois a internet tornou-se conhecida no país e rapidamente abri minha conta em um provedor de acesso. Foi uma experiência estranha, pois ainda não compreendia bem a utilidade daquele serviço ainda incipiente.

Nesse meio tempo, comecei a perceber que algo não estava indo bem na minha vida profissional. Dentro de mim algo dizia que podia fazer mais do que passar de uma recepção de hotel para outra.

Ainda buscando nos classificados dominicais o emprego que desejava, encontrava eventualmente uma oportunidade que não dava retorno. Acredito que o fato de já estar formado há algum tempo e não ter experiência me prejudicou.

Por essa época, em um evento no Museu Nacional de Belas Artes vi pela primeira vez um computador conectado a internet navegando no site do Louvre. Computadores já me fascinavam e com essa experiência o sentimento se intensificou. Percebi então a oportunidade para voltar ao mercado na minha área: criar páginas para internet. Estava em pé de igualdade com qualquer outro, pois poucos sabiam mexer com computadores e internet.

Comecei aprendendo sozinho HTML e logo surgiram os primeiros editores visuais de código. Dediquei-me a aprender a utilizar programas de edição de imagem, de desenho vetorial e outros, o mais rápido possível. Lá por 1997 utilizei uma estratégia simples para divulgar meu trabalho: enviei um e-mail para vários provedores de acesso a internet da cidade.

Trabalhava no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro nessa época e, coincidência ou não, encontrei uma oportunidade em um pequeno provedor cujo dono era ligado a aviação. Foi uma espécie de estágio e fiquei lá por cerca de dois anos e dividia meu tempo entre os dois empregos. Algum tempo depois do provedor ter encerrado suas atividades, alguns clientes entraram em contato para que os continuasse atendendo.

Lá pela segunda metade de 1999, sabendo que a vida na aviação não era minha verdadeira praia, lancei mão mais uma vez do e-mail marketing em busca de algo diferente. Fui chamado por uma das empresas que havia contatado. Pedi as contas do aeroporto.

No que considero a virada do milênio, 31 de dezembro de 1999, sexta-feira, deixei o aeroporto para iniciar na segunda, dia 3 de janeiro de 2000 em uma pequena empresa como webdesigner. Fiquei lá por 6 meses até que surgiu uma nova oportunidade em uma agência digital de médio porte que atendia a grandes empresas. Nessa hora realmente me senti no mercado. Continuei estudando, pesquisando, mas ainda não havia entrado em contato com a idéia de fazer carreira. Lia algumas publicações sobre empreendedorismo e não conseguia perceber como aplicar aqueles conceitos a minha vida.

Saí desta empresa em 2003 após um corte de pessoal. Bateu uma tristeza muito forte e li mais uma vez os números antigos daquela publicação sobre empreendedorismo procurando me reanimar. Finalmente entendi: era hora de investir em minha carreira! Mas…O que fazer? Como fazer?…

Eventualmente surgiram outras oportunidades: em outra agência digital e, posteriormente, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Por questões particulares, foi uma época difícil para mim. Porém, a idéia de planejar uma carreira já estava na minha cabeça e isso me deu força para continuar. Fiz uma avaliação geral da minha vida, a forma como a estava levando e cheguei a conclusões que me surpreenderam! Vi que era hora de fazer mudanças, procurar novos caminhos e entendi como a falta de um planejamento profissional estava me prejudicando. Aos poucos comecei a montar um quebra-cabeças que nem sabia existir.

Desde que saí da UERJ tenho trabalhado apenas como freelancer. Financeiramente, tenho levado uma vida franciscana, mas procuro investir em mim fazendo cursos no Brasil e no exterior, participando de eventos ligados à minha área de atuação. Tenho feito vários movimentos que poderão me dar um bom retorno no futuro. Acredito nisso. Estou aprendendo algumas lições importantes.

Levou algum tempo até que eu desse um rumo à minha carreira. Estou em uma fase de projetar. Sonhos e idéias se misturam. Tenho consciência de que já cheguei a meia-idade, ou seja, os próximos passos precisam ser muito bem planejados.

Sinto-me começando aos 40.

Não é uma segunda ou uma nova profissão ou um recomeço. É um início em um caminho sobre o qual ainda não tinha dado os primeiros passos.

Minha intuição diz que estou fazendo a coisa certa. E acredito nela.

Baseado em um texto escrito em maio de 2006.
Dedico este artigo àqueles que, como eu,
estão vivenciando um momento de virada em suas vidas.
Para o melhor, eu espero.

Essa história não termina aqui. Leia o que aconteceu “5 anos depois: uma carreira”.

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24 Replies to “40 anos sem carreira”

  1. claudia

    Helvecio, muito animador seu texto mas acredito que para quem sabe o que fazer da vida, para quem tem sonhos, projetos, fique bem mais facil correr atras. Agora, fico imaginando o meu caso que com 45 anos nao tenho nehum projeto, nao tenho habilidades para fazer nada, é muito frustrante ver as pessoas ao meu redor com projetos , buscando algo que elas acreditam e eu nem sei o que eu quero da vida.. aff…

    • Helvecio

      Claudia, obrigado por sua mensagem! Eu também não sabia o que fazer da vida até certo momento. Como descobri um caminho a seguir. Comecei a olhar para mim mesmo e me conhecer melhor. Você diz que “não tem habilidades para fazer nada”. Por que você diz isso? Nunca trabalhou? Você possui alguma limitação? Sugiro que você pare de olhar as pessoas ao seu redor, que te causa frustração. Olhe para você mesma. Pense nas coisas que você gosta de fazer. Qualquer coisa. Pintar? Escalar montanhas? Cozinhar? Dirigir? Andar? Eu já estive aí onde você está, sem saber o que eu queria da vida. A resposta encontrei em mim mesmo. E foi preciso buscar por bastante tempo. Boa sorte!

  2. Telma moreira

    Ola bom dia, gostei muito de sua postagem, estou com 43 anos e estou fora do mercado a mais de 20 anos por uma escolha de criar meus filhos. Vi sua postagem pois, coloquei no Google “como começar a trabalhar depois de 40 anos”, só que o que percebi todos ja tem uma carreira. Eu estudei jornalismo, gestão ambiental, designer gráfico e técnica de segurança do trabalho, só que nunca pratiquei nenhuma área. Estou perdida pois experiência e zero no meu caso mas meus parabéns a todos e a você.

    • Helvecio

      Telma, quando comecei a trabalhar na minha profissão já estava com 34 anos e sem nenhum experiência. Sugiro que você comece se respondendo das coisas que sabe, o que gostaria de fazer agora? Me parece que você tem um leque de opções e talvez até outras que tenha aprendido ao longo do caminho. Falta de experiência é uma desculpa para continuar como está. Comece, planeje, tenha paciência. Esteja aberta para o novo em sua vida. Boa sorte!

  3. Alessandro Quadros

    Olá companheiro. Que gostoso e animador esse seu texto. Eu me encontro também no começo dos 40 anos e com aquela certeza de que agora vai…. que as experiências adquiridas com o tempo, as inúmeras madrugadas passadas em claro, as intermináveis linhas de código, alterações, solicitações e frustrações serviram, se não para acumular o tão esperado pé de meia, para ao menos garantir a coragem de mudar.

  4. flamula

    Olá Helvecio. Hoje após ler em seu blog sua experiência de vida consegui ampliar a visão para a minha.
    Tenho 40 anos, sou Policial Militar há 20 anos e quando entrei para a instituição estava no término da faculdade de direito,e nesse período engravidei, casei e precisava muito do emprego, porém nunca fui apaixonada por ambas, nem exerci a graduação. Estou casada até hoje e amo meu marido e meus dois filhos e não os culpo pela minha infelicidade profissional.Porém sinto um grande vazio em minha vida por não ter realização profissional.
    Vou me aposentar em fevereiro de 2012 e estava pensando em fazer faculdade de Biomédicina,mas algumas pessoas dizem que estou ficando louca por querer procurar uma nova profissão nesta idade e que será muito difícil entrar no mercado de trabalho.
    Mesmo com esses comentários indesejáveis sempre acreditei que não fosse, pois não me sinto velha ou incapacitada.
    Sua história foi a injeção que precisa.
    Obrigada.

    • Helvecio

      Fiquei muito feliz ao ler seu comentário. Pesquise e explore ao máximo as possibilidades dentro da nova área na qual você deseja atuar. Se esta é a biomedicina, mesmo antes de entrar na faculdade busque conhecer profissionais da área e suas trajetórias profissionais. Pense em trabalho e não em emprego. Minha cara…As possibilidades agora são infinitas. Você acabou de escolher viver! Boa sorte!

  5. Marcelo

    Gostei do seu texto, me identifiquei… tenho 39 sou artista plástico de formação, designer desde sempre. rsrs, mas ainda espero o momento de ver minha carreira deslanchar.

    Sucesso pra vc. colega

    • Helvecio

      Oi Marcelo!
      Obrigado. Bom saber que o que escrevo está alcançando alguém. Espero que tenha te inspirado a continuar.
      Uma sugestão: faça sua carreira deslanchar! Estude, pesquise, pergunte, viaje, conheça novas pessoas, participe de eventos e trabalhe, trabalhe, trabalhe. Aprenda a gostar do que faz, se você ainda não faz o que gosta. E se faz o que gosta é só continuar fazendo o que faz. 😉
      Aproveite e leia o post “5 anos depois: uma carreira”.
      Sucesso para todos nós!

  6. Rafael

    ahah! gostei muito da troca de experiencia, até pq estou nessas questões agora aos 23. ler o post me ajudou a compreender que não adiantará de nada apenas ficar no matutar, no “e se”; tem q tentar, tem q se colocar a caminho, dar a cara a tapa; desanimo? entao respire fundo, ajeite o sutiã e vai. tá ai outra coisa q aprendi com meu mentor. =)
    Continue Helvis a ouvir sua intuição e obrigado tb pelas oportunidades q vem me dando.

  7. Cláudia

    Oi Helvinho!
    Li o seu artigo e realmente é bem complicado essa coisa de carreira, ainda mais no Brasil. Conseguir trabalhar no que se gosta infelizmente é privilégio de poucos. O jeito é fazer uma limonada com o limão que temos. Eu também fico pensando nisso, mas sabemos que tudo no final vai dar certo e tem um propósito. Continue com seus sonhos. Isso ninguém tira de nós.
    bjs

    • Helvecio

      Cláudia, concordo com você. Carreira é um assunto que traz mais dúvidas do que certezas para nós brasileiros. Acredito até que por uma falta de educação empreendedora em nosso país. Obrigado!

  8. Rafa

    Oi Elvis,

    Eu não sabia que vc tinha um blog! Super me solidarizo contigo, tenho 33 e ainda tô longe de onde quero chegar, fazendo ainda a licenciatura. Forte abraço,

  9. Marcelo Novaes

    Muito legal Helvécio! Uma reavaliação de caminhos é sempre bem-vinda, especialmente qdo a intenção de querer partir pra ação fica clara em nosso planejamento. Escrever este texto já é uma forma de ação, que com certeza, vai resultar em transformações efetivas.

    Conte comigo, sempre!
    Marcelo

  10. Marcelo Novaes

    Muito legal Helvécio! Uma reavaliação de caminhos é sempre benvinda, especialmente qdo a intenção de querer partir pra ação fica claro em nosso planejamento. Escrever este texto já é uma forma de ação, que com certeza vai resultar transformações efetivas.

    Conte comigo, sempre!
    Marcelo

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