Conversando com meu amigo Henrique, um artista plástico que tem um trabalho belíssimo, discutíamos aqueles momentos em que tudo parece difícil. “Você já se decepcionou com sua própria arte?” Essa pergunta pairava no ar.

Sou um designer, não um artista, mas a pergunta é pertinente pra mim, pois como autônomo tem momentos que questiono se o que estou fazendo vale a pena.

Acredito que todos aqueles que trabalhem em áreas ditas criativas (artes, design etc.) passem por esse momento, várias vezes na vida. Ele chega quando se é obrigado a fazer algum tipo de tarefa que foge daquela idealização do perfeito que fazemos do nosso trabalho. Isso se chama rotina.

Em um mundo perfeito eu seria um profissional que acordaria todos os dias com a cabeça a mil e realizaria somente trabalhos criativos e maravilhosos para clientes maravilhosos e dispostos a pagar qualquer preço por minhas idéias.

A realidade é diferente. E aceitar essa realidade é o primeiro passo para não se decepcionar com sua arte.

Primeiro: olhe para o seu trabalho.

Você gosta do que faz? Você às vezes se pega admirando algo que fez, meio que surpreso por ter chegado aquele resultado? Mesmo que você ache que poderia fazer melhor, você gosta dos resultados dos seus trabalhos?

Se você respondeu sim a essas perguntas, continue fazendo o que está fazendo. Se você quer fazer um concurso público, vá em frente, mas pense que você está adicionando uma carreira a sua vida e não trocando uma pela outra.

Olhe em volta. Escute. O que estão falando do seu trabalho? Você recebe elogios? Você tem clientes que te chamam para realizar novos trabalhos? Se você ouve coisas boas e é chamado mais de uma vez pelo mesmo cliente, então a situação me parece boa.

A rotina faz parte da vida. Lutar contra ela é inútil. Fazer um trabalho chato é algo que faz parte do processo, não tem como escapar.

Houve uma época em que algumas super-modelos diziam: “Não levanto da cama por menos de US$10.000,00!” Elas não diziam: “Só levanto da cama pra fazer o que eu gosto.” O que isso quer dizer? Saber andar em uma passarela não é sinônimo de sucesso. Assim como ser criativo. Ou se tem a sorte de estar em um meio que valoriza esse dom, ou então se trabalha (e muito) pra se tornar conhecido. É preciso trabalhar pelo seu sucesso. Mesmo quando já se tenha chegado lá.

Quando foi chamado para pintar o teto da Capela Sistina, Michelangelo recusou o trabalho por se achar um escultor e não um pintor. Conta a história que o Papa Júlio II permitiu que Michelangelo pintasse algumas imagens de sua escolha, para convencê-lo a fazer o trabalho.

Idealismo é bom, mas é preciso moderação. Quando o desânimo bater, ligue pra um amigo, compartilhe suas dores e siga em frente. Certos trabalhos são chatos, mas precisamos deles pra pagar nossas contas.

  Delicious